Ensaio Sobre O Auto-Refinamento e a Ascensão ao Céu Interior
Nenhuma árvore chega ao céu sem que suas raízes toquem o inferno. Neste ensaio, convido você a embarcar numa jornada alquímica interior inspirada em Jung, Dante Alighieri, Sócrates, Freud e Fernando Pessoa. Aqui, o Inferno não é um lugar externo: é a nossa própria Sombra. O Paraíso não está depois da morte — ele se constrói agora, dentro de nós, lapidando a pedra bruta da alma até transformá-la em diamante. Exploramos o auto-refinamento como Grande Obra (Magnum Opus): o confronto consciente com o caos interior, a integração da Sombra, a humildade do Ego diante do Self e a escuta fiel da Voz Interior — nosso Virgílio mais verdadeiro. Com linguagem potente e imagens que mesclam mitologia, psicologia analítica e alquimia, mostro por que o céu que buscamos desde os sumérios até hoje não é dádiva divina nem fuga da Terra, mas o resultado inevitável de quem escolhe, dia após dia, não desistir de si mesmo. Se você sente que há algo maior pulsando dentro de você — uma Chama Negra que quer ascender —, este texto é para você. Porque o verdadeiro Paraíso não se espera. Ele se forja. E a forja começa agora.
PSICOLOGIA JUNGUIANAAUTO-REFINAMENTO OU DESENVOLVIMENTO PESSOAL PROFUNDOALQUIMIA INTERIOR OU ALQUIMIA PSICOLÓGICATRABALHO COM A SOMBRA OU INTEGRAÇÃO DA SOMBRAESPIRITUALIDADE E AUTOCONHECIMENTOINDIVIDUAÇÃO JUNGUIANAFILOSOFIA EXISTENCIALCRESCIMENTO INTERIOR / JORNADA INTERIORPSICOLOGIA ANALÍTICAMITOLOGIA E SÍMBOLOSGRANDE OBRA (MAGNUM OPUS)CÉU INTERIOR / ASCENSÃO ESPIRITUALENSAIOS
Krauswzcki
3/5/20266 min read


Introdução
"Nenhuma árvore pode crescer até ao céu, a menos que as suas raízes alcancem o inferno" – como dizia Jung e disso cabe-se a nós sermos sermos Dante Alighieri em nossas jornadas alquímicas interiores de refinamento, para que possamos “lapidar a pedra bruta em diamante”. Todos precisamos de um ‘Virgílio’ em algum momento da estrada, porém, creio que nosso Virgílio mais fiel é, sobretudo, nossa Voz Interior. É preciso aprender à escutá-la, pois dentro de nós e somente em nós, é que se esconde a Pedra Filosofal.
Somos seres em constante evolução, buscando ascensionar à um céu que talvez nunca exista ou que, em última instância, exista dentro e não fora. Não se pode esperar o milagre para que a Terra se mova, para isso foi dada a lei da gravidade, ela faz a rotação e a translação não porque quer, mas porque não tem escolha. O céu nasce não por dádiva de Rá, a noite vem não por fúria de Set, mas por conta de interpolações dos astros de Sol e Lua em nosso sistema solar. Dito isso, o fulgor da vida é a mesma coisa, temos o ímpeto natural de viver, de gozar, de usufruir do que a vida nos dá, isso é o sopro da existência em nossas narinas, isso é a pulsão de vida e a libido que Freud tanto falava. As pessoas não tem medo da morte, elas temem não conseguir usufruir de tudo o que a vida pode lhes dar enquanto ainda vivem ou de partirem sem conseguir alcançar seus deleites, ou até mesmo com dívidas à serem pagas, temendo que possam pagar pelos seus erros ou que ardam em fogo eterno. As pessoas que querem se matar não querem fugir da vida e não a odeiam intrinsecamente, só tiveram seus fluxos de graça interrompidos por catostrófes que circundaram suas mentes e nublaram seus céus, escondendo-lhes o sol que nasce para todos de igual modo.
Cabe a nós, seres que buscamos evoluir e transpor os limites da realidade, que nos lapidamos constantemente, à auto-reflexão, somente inspecionando nossas odisséias interiores é que poderemos alçar à um Paraíso vívido e palpável. Todos estamos aptos à errar, assim como estamos aptos à acertar, todos caímos na primeira vez em que tentamos andar, todos já tropeçamos algumas vezes na vida, todos erramos alguma conta de matemática ou travamos na hora de pronunciar alguma palavra desconhecida; porém, todos já acertamos um passe de dança, todos já acertamos em alguma prova, todos já tivemos conquistas ou seja, o erro está tanto quanto o acerto está para o erro, basta no auto-refinamento interior, optar conscientemente pelo acerto em uma busca hercúlea, que ele tenderá a se mostrar mais. A Lei dos Grandes Números nos mostra que quanto mais tentamos algo, mais se aproximamos daquilo dar factualmente certo, isso é exemplificado pelo clássico de “abandonou justo quando ia dar certo” ou “estava à um passo da mina de ouro” – em primeiro lugar, deve-se saber que todo o esforço contínuo e recorrente, aumenta exponencialmente a probabilidade de se alcançar o que se busca, por isso deve-se abster-se de toda e qualquer desistência, mirando incansavelmente no objetivo demarcado –, sempre saiba que humanamente, ninguém é provido da excelência antes de inciar em algo, mesmo alguns tendo alguma vantagem, a Regra das 10 mil Horas está aí e prova que a maestria pode sim ser alcançada por qualquer indivíduo que tenha suas capacidades conservadas.
O auto-aprimoramento deve sempre ser consciente e convicto em cada atitude tomada, somos seres dotados de uma consciência, logo, estar inconsciente o tempo todo é, de certa forma, uma má utilização dessa ferramenta consciencial que nos foi concedida. O céu é um ideal humano buscado desde os primórdios da humanidade, desde os Sumérios até os tempos contemporâneos, de alguma forma sempre soubemos que há algo à mais que nos espero ou nos ronda desde de nosso momento de concepção. Ser humano algum foi feito para viver miserável, a miséria é, por si só, um erro de cálculo e da ganância do próprio ser humano. As Leis da Natureza seguem o seu fluxo ininterrupto e não há nada de errado num leão caçar um veado, matá-lo e comê-lo – esta é a Lei do Forte, isto é Thelema de fato, o leão vive segundo a Verdadeira Vontade dele, que é, por sua vez, manter seus instintos e reinar no reino animal. O homem tem dentro de si uma besta incontrolável que anseia por sair, por expressar-se, por desenvolver-se. Temos em nós uma chama – a Chama Negra – que pulsa em gradientes irradiantes, tornando-nos seres divinos em pele humana; no fundo, querer um céu é querer voltar para casa, mas querer voltar para casa é querer fugir da casa em que se está, aceitar essa moradia terrena em que estamos e buscar desenvolver-se da melhor maneira aqui é que nos resta.
Somos seres que vieram para cá, que cruzaram as mônadas rumo à esta experiência, com um fim em refinar-nos para que possamos crescer abundantemente e alcançar nossas melhores versões. O processo de individuação e de integração das Sombras pode ser árduo, mas sempre dá-nos bons frutos que acabam por levar-nos à um encontro com nosso Self e é só interagindo com ele que poderemos evoluir verdadeiramente, nos despindo de todas nossas amarras e crenças limitantes que nos barram em nossos processos.
O Auto-Conhecimento Como Pilar
“Conhece-te a ti mesmo e conhecerá o universo e os deuses.” – a máxima de Sócrates continua sendo um pilar central para que possamos alçar ao nosso paraíso, só se pode saber qual o nosso píncaro se conhecendo verdadeiramente e acessando suas profundezas. Durante o processo de auto-refinamento, é importante reconhecer a “Matéria Prima”, um estado inicial “bruto” ou “caótico”, o caos alquímico que simboliza o inconsciente não trabalhado. Depois o enfrentamento da sombra, o refinamento começa com o esforço moral de conscientizar a Sombra, a metade oculta da alma que contém traços reprimidos e instintos primitivos. Sem esse reconhecimento, o indivíduo permanece fragmentado e "escuro". Passamos para a limitação do ego, onde é essencial introduzir a ideia de que o Ego é apenas o centro da consciência, mas não a totalidade do ser. A ascensão exige que o ego admita sua ignorância e submeta-se a uma autoridade superior: o Si-mesmo (Self).
Somos impulsionados durante toda a nossa vida a buscar algo que nem sabemos o que é, entramos em buscas externas de uma vida ideal, como se a eudaimonia do Ser fosse definida meramente por questões superficiais que não são oriundas de estados internos. O ser humano sente-se deslocado do Si Mesmo, buscamos atribuir sentido às questões meramente sociais, como trabalho, status ou reconhecimento supérfluo; mas não é deste modo que alcançaremos o nosso céu idealizado. É preciso trabalhar nesta obra (opus) e mudar a substância da alma para construir nossa Grande Obra, sublinhando toda a matéria densa em sútil, tornando-nos assim elevados suficientemente para ir de encontro ao nosso paraíso.
Há vezes em que a jornada parece emudecida e sem cor, que parece que tiraram nossas expectativas de alcançar algo à mais – porém, é só deixando de lado nossas expectativas, do latim exspectatum, “esperar”; que podemos nos fincar no Agora e velejar em nossas marés, por mais turbulentas que sejam e tirar de lá a magnum opus.
Conclusão
Não se pode buscar fora o que se está dentro e não se pode buscar dormindo o que se encontra acordado, é preciso que o auto-refinamento seja feito com afinco e constância, a jornada interior exige atenção plena para que possas se sublinhar. O céu é um patamar alcançável em vida, não após ela – não se pode fugir do aqui e agora esperando alcançar um paraíso lá fora, é possível alçar ao seu ponto mais alto enquanto ainda viveres – agora se pergunte: o que há em mim que pode ser lapidado para me levar ao meu paraíso? A resposta será sempre conflituosa, mas a colheita dará igualmente bons frutos, pois, como disse Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena. Se a alma não é pequena".


Krauswzcki
Krauswzcki é um polímata, artista multifacetado, escritor, músico e empreendedor. Autor de Quarentena dos Racionais e O Gato do Cão, já compôs mais de 300 composições musicais e tem 18 músicas lançadas, mais de 400 poemas, mais de 11 livros finalizados e muito mais. Ator, dramaturgo e roteirista, também atua na inovação, liderando projetos e empresas, como a iniciativa da Max Creative. Estudante de Psicologia e Física, busca unir arte e conhecimento em sua jornada.
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